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Artigo


Denunciadas doações de alimentos transgênicos

Por Alfredo Aparício*

A suposta presença de milho e soja geneticamente modificados em programas de ajuda alimentar provoca intensa polêmica na Bolívia.

LA PAZ - Um novo caso reabriu o debate sobre o consumo de transgênicos no mundo andino: desta vez, trata-se de uma mescla de soja e milho geneticamente modificados, que fariam parte das doações alimentícias destinadas pelos Estados Unidos à população pobre da Bolívia.

O não-governamental Foro Boliviano do Meio Ambiento e Desenvolvimento, Fobomade, informou que amostras de produtos doados foram enviadas no dia 14 de abril de 2001 ao laboratório Genetic-ID de Fairfields, Estados Unidos, para a sua respectiva análise. Os resultados mostram que em uma mistura de soja e milho foi detectada a presença de milho transgênico em uma concentração maior que 10%, e de soja transgênica, entre 10% e 13%.

O Fobomade assinala que, desde 1955, 90% do total da ajuda alimentar na Bolívia provém do Programa Public Law - 480 (PL-480), uma emenda com o mesmo número à Constituição norte-americana, que permite que o governo entregue recursos para países em desenvolvimento. Chega principalmente trigo em forma de farinha, e também em forma de bulgur e bulgur fortificado (trigo quebrado e trigo quebrado com flocos de soja), além de leite em pó desnatado, azeite e uma série de misturas.

A ajuda alimentar do governo norte-americano é canalizada por instituições privadas, como a Care Bolívia, Food for the Hungry e a Agência Adventista para o Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra), todas com escritórios nos Estados Unidos. Esses alimentos são distribuídos de diferentes formas e abarcam várias zonas do território boliviano, mas em particular aquelas onde se apresentaram dificuldades por fortes chuvas e que englobam extensas áreas do altiplano, os vales e os trópicos.

Entretanto, o diretor-executivo do PL-480, Carlos Brockmann, assegurou que, desde 1994, o seu escritório não importa nenhum alimento dos Estados Unidos, e que são empresas privadas as que fazem esse trabalho, sob a modalidade de licitações internacionais. A Embaixada dos Estados Unidos em La Paz, por sua vez, confirmou, através de um boletim, que “alguns alimentos doados são efetivamente modificados geneticamente”. Acrescentou, entretanto, que “é totalmente falso que os Estados Unidos utilizam os países pobres da América Latina como pontas-de-lança para proporcionar uma nova tecnologia perigosa e desnecessária.

Em janeiro de 2001, o Ministério da Agricultura colocou em vigência a Resolução Ministerial 001, que estabelece a restrição, pelo período de um ano, ao ingresso de organismos geneticamente modificados, “apesar da falta de certeza científica”. Essa decisão foi impulsionada por pressões da Confederação de Camponeses da Bolívia, que, em abril e outubro de 2000, manteve o governo em cheque, com bloqueios e manifestações, só levantados depois da assinatura de 50 acordos, entre eles o de proteger a biodiversidade local e suspender experiências com cultivos transgênicos de soja, batata e algodão, que empresas como a Monsanto-Argentina, realizavam desde 1998.

Apesar dessa disposição, há um mês o Ministro da Agricultura, Hugo Carvajal, enviou uma carta ao embaixador dos Estados Unidos, esclarecendo “que tal norma não afeta a recepção de doações de países amigos e de entidades internacionais com as que, tradicionalmente, a Bolívia mantém relações”. Acrescentou que “as apreciações de alguns particulares e organizações privadas publicadas sobre a qualidade e segurança das doações alimentares norte-americanas não comprometem o governo nacional nem a política de Estado nessa matéria”.

A reação do máximo dirigente dos camponeses bolivianos, Felipe Quispe, o Malku, foi imediata: os trabalhadores do campo “vão queimar as doações transgênicas”. Quispe assinalou que não estranha a posição adotada pela atual administração do presidente Hugo Banzer, já que “se trata de um governo racista, ao qual não importa o que comemos”, e exigiu que as autoridades demonstrem que os alimentos transgênicos não atentam contra a saúde. Por sua parte, Oscar Mendieta, diretor da Associação de Produtores Agroecológicos da Bolívia (Aopeb), afirmou que a decisão governamental “é uma humilhação que não permitiremos”.

Alguns especialistas, todavia, consideram que se está dando feição demoníaca à biotecnologia. “Creio que o debate não segue um caminho adequado e também parece que há uma intenção de satanizar a nova tecnologia sem dar oportunidade a que se possam estabelecer os riscos, os quais, se existem, não são da magnitude propalada”, disse ao Terramérica Mario Baudoin, diretor de Biodiversidade do Ministério de Desenvolvimento Sustentável. “Não temos porque fechar a porta para uma interessante possibilidade de conseguir melhores rendimentos e tampouco deveríamos desconhecer a natureza para obter alimentos através de diferentes formas”, assegurou Baudoin.

* O autor é jornalista boliviano, colaborador do Terramérica


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Crédito: Mauricio Ramos
 
Crédito: Mauricio Ramos

Enlaces Externos

Fobomade e os transgênicos

O que são os transgênicos?

Situação dos transgênicos na Bolívia

Aopeb

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