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O Ártico em perigo |
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Por Danielle Knight*
Ursos polares, lobos, renas e centenas de milhares de aves migratórias estão condenados à extinção, devido às ameaças ao equilíbrio ecológico dessa gelada região, onde existe um perigoso ritmo de industrialização e exploração de minas e de petróleo.
WASHINGTON - A construção de estradas e portos
e a exploração de minas e jazidas de petróleo ameaçam o equilíbrio
ecológico da região do Oceano Ártico, alertam os pesquisadores do
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Cientistas
do centro de pesquisa do Pnuma em Arendal, na Noruega, afirmam que
o atual ritmo de desenvolvimento culminará em um processo de industrialização
de 80% da região até 2050, contra os 15% atuais. As pesquisas, divulgadas
pela Internet no site www.grida.no, basearam-se em mapeamentos por
satélite e em outros 200 estudos realizados em diferentes países.
Svein Tveitdal, do centro de Arendal, destaca as invasões - planejadas
ou em curso - na península russa de Yamal, no Refúgio Nacional da
Fauna do Ártico (Alasca, Estados Unidos) e na região do Mar de Barents.
Tveitdal expressa especial preocupação quanto aos planos de se abrir
uma nova rota marítima de 5600 quilômetros entre o Mar de Barents
e o Estreito de Bering.
A chamada Rota do Mar do Norte se destina
a encurtar o tempo de navegação entre a Europa, a península escandinava,
a Rússia e o distante Oriente. Entretanto, os pesquisadores afirmam
que a rota promoverá a exploração de petróleo, gás natural e minerais
na Sibéria, o que aumentará o número de portos, estradas e navios
na região. Embora o objetivo primário seja o desenvolvimento industrial
que pode ser especificamente planejado, tal infra-estrutura acarretará
conseqüências involuntárias e incontroláveis, como a migração e
os assentamentos humanos, prevê Tveitdal. “Isto, por sua vez,
aumenta o risco de desmatamento, pastoreio intensivo, conflitos
sociais, poluição da água, degradação da terra e fragmentação de
hábitats”, acrescenta.
O potencial de perturbação ambiental existe,
embora o crescimento da infra-estrutura seja lento, alertam os pesquisadores.
Mesmo que o ritmo do desenvolvimento seja menor que o registrado
entre 1940 e 1990, cerca de 40% dos ecossistemas do Ártico estariam
gravemente alterados em 2050. As espécies em maior perigo seriam
as renas, os caribus (renas selvagens), lobos, ursos polares e pardos
e as aves. Os animais evitam as áreas desenvolvidas e a perturbação
nos hábitats e nos hábitos de migração alteram sua capacidade de
reprodução. As renas e os caribus são os animais mais sensíveis
à atividade humana, porque sua área de pastoreio diminui entre 50%
e 90% a uma distância de até dez quilômetros das estradas, linhas
elétricas ou assentamentos, segundo os pesquisadores.
As aves do Ártico também sofrem com o desenvolvimento
industrial. Numerosos estudos demonstraram que a população de pássaros
caiu até 44% a 1,5 quilômetros de distância de uma nova rota. “O
efeito cumulativo do desenvolvimento por etapas que acontece no
Ártico é ainda maior nos ecossistemas da região como resultado das
mudanças a longo prazo no uso da água, no nível de poluição e na
condição do subsolo polar”, destaca o Pnuma. Por exemplo,
o impacto de uma estrada sobre a vegetação pode ser detectado até
a cem quilômetros de distância, nas mudanças do subsolo polar e
nos cursos de água. Além disso, as estradas permitem aos caçadores
e às madeireiras o acesso a regiões antes demasiadamente remotas.
Tudo isso ameaça as comunidades indígenas,
que baseiam seu modo de vida e sua sobrevivência na caça e no pastoreio
de renas e caribus. Além disso, estudos científicos demonstraram
que o crescimento da infra-estrutura de transporte e extração de
petróleo, gás e minerais é cada vez mais incompatível com a criação
de renas no norte da Escandinávia e em algumas partes da Rússia.
Apesar de seu estatuto de áreas protegidas, “muitos ecossistemas
fundamentais estão desprotegidos, em especial no sul do Ártico,
onde acontece a maior parte do desenvolvimento”, diz Mark
Collins, do centro de Observação para a Conservação Mundial do Pnuma,
com sede em Cambridge, na Inglaterra.
Uma dessas áreas é o Refúgio Nacional da Fauna
do Ártico, no estado norte-americano do Alasca. O governo de George
Bush, sob pressão de grupos industriais, promove a exploração e
extração de petróleo e gás natural na reserva, mas os ambientalistas
opõem-se ferreamente. BP-Amoco, Arco e Chevron são algumas das empresas
que pretendem explorar jazidas offshore no gelado mar de Beaufort.
Os planos incluem a construção de um oleoduto submarino. “As
perfurações farão desaparecer para sempre essa paisagem espetacular,
que abriga ursos polares, lobos, caribus e centenas de milhares
de aves migratórias”, adverte Melinda Pierce, da organização
ambientalista Sierra Club.
* A autora é correspondente da IPS
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