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Mundo em desenvolvimento triunfa em Doha

Por Andrés Cañizalez*

Ativistas aplaudem a recente declaração da OMC em torno das patentes, que permite aos países pobres obter medicamentos mais baratos.

DOHA.- A Quarta Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) interpretou que as normas sobre propriedade intelectual não impedem, nem devem impedir, os governos de adotarem disposições para proteger a saúde pública. A declaração da OMC, solicitada pelos países africanos com apoio do Brasil e da Índia, foi precedida de uma mobilização internacional e de um debate político, promovidos por grupos da sociedade civil. Uma das organizações que deu força à campanha global pelo acesso aos medicamentos, a Oxfam Internacional, estima que, com a declaração, os países em desenvolvimento conseguiram uma grande vitória política. "O acordo sobre patentes ajudará os países pobres a conseguirem remédios mais baratos", disse Michael Bailey, assessor político da Oxfam.

Os ministros reunidos em Doha, no Catar, entre os dias 9 e 14 deste mês, negociaram uma declaração que tenta resolver a controvérsia sobre as flexibilidades que o acordo sobre patentes medicinais dá às autoridades sanitárias. As normas em discussão foram parte do acordo da OMC sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual relacionadas com o Comércio (ADPIC).

Este acordo proporciona flexibilidade aos países para empregarem o recursos das licenças obrigatórias e das importações paralelas em caso de emergência nacional ou em outras circunstâncias de extrema urgência.

Entretanto, alguns governos relutam em aplicar essas disposições, por medo das ações que os países sede dos laboratórios farmacêuticos possam empreender junto ao Órgão de Solução de Diferenças da OMC. As licenças obrigatórias são autorizações para copiar fórmulas de medicamentos que os governos podem outorgar nesses casos especiais. As importações paralelas são, por sua vez, produtos fabricados e comercializados pelo titular da patente em um país e importados por outro país sem a aprovação de quem possui a patente.

Os ministros decidiram que o acordo ADPIC será interpretado e aplicado de maneira que apóie o direito dos membros da OMC de protegerem a saúde e, em particular, de assegurar o acesso de todos aos medicamentos. Uma coalizão de organizações não-governamentais disse que, com essa declaração, os 143 países da OMC reconhecem a liberdade dos governos de tomarem todas as decisões necessárias para proteger a saúde pública. Os países podem garantir o acesso aos remédios sem medo de se verem envolvidos em litígios legais, afirmou Ellen Hoen, da ONG Médicos sem Fronteiras. Em outro ponto, a declaração reconhece que alguns estados-membros com insuficiente ou nenhuma capacidade no setor farmacêutico podem enfrentar dificuldades para empregar as licenças obrigatórias contempladas pelo acordo ADPIC.

O Conselho dos ADPIC, organismo permanente que funciona na sede de Genebra da OMC, cuidará de encontrar uma solução para esse problema e de informar ao Conselho Geral da instituição antes do final de 2002. Os laboratórios multinacionais consideram as licenças obrigatórias uma ameaça à saúde pública, porque negam aos doentes os benefícios futuros de novas terapias provenientes da pesquisa que a indústria realiza. Sem a possibilidade de contar com a exclusividade de mercado garantida pelas patentes, não é comercialmente factível oferecer novos medicamentos, alegam os laboratórios.

* O autor é correspondente da IPS


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Enlaces Externos

Organização Mundial do Comércio

Resultados da Conferência da OMC no Qatar

Quarta Conferência Ministerial da OMC

A conferência da OMC e a propriedade intelectual

A propriedade intelectual e a saúde

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