 |
|
|
Os pecados do McDonald’s |
|
Por Paul Hawken*
O Informe sobre a Responsabilidade Social Empresarial desta rede de fast food é uma tentativa de apresentar-se como uma empresa comprometida com a comunidade.
SAUSALITO.- O relatório é uma mistura de sermões, generalidades e frágeis garantias, que não proporciona uma visão clara da companhia, de suas atividades e impactos na sociedade e no meio ambiente. Trata-se, em todo caso, de um documento sobre como uma corporação, severamente afetada pela má publicidade e com lucros em baixa, procura advogar por uma causa perante os críticos. O documento pressupõe que podemos continuar tendo uma rede mundial de restaurantes que serve "sucata alimentar” frita, produzida por um sistema agrícola de monocultivos, monopólios, padronização e desnutrição, e, ao mesmo tempo, busca um caminho para a produção sustentável.
Nada pode estar mais longe da sustentabilidade do que a corporação McDonald’s. O relatório afirma que “sendo um líder socialmente responsável (assim se define), o McDonald’s inicia um processo que implica mais consciência nas questões mais importantes para os consumidores". A companhia sabe, há décadas, que a comida que vende faz mal às pessoas, e fomenta a obesidade e as doenças cardíacas. Entretanto, pouco fez para modificar seu cardápio.
O McDonald’s sempre resistiu às tentativas de organização social de seus empregados e pressiona intensamente contra aumentos do salário mínimo. Dizer que a empresa trabalha ativamente para sufocar os sindicatos é apenas um eufemismo. Durante anos buscou os alimentos mais baratos e padronizados, criando poderosos incentivos para a centralização do processamento dos alimentos, para a grande agroindústria e para as longas linhas de abastecimento, o que atenta contra a segurança alimentar. Quando o McDonald’s anuncia agora que quer frangos livres de antibióticos dá uma bofetada em milhares de pequenos produtores avícolas marginalizados do negócio pelas empresas que introduziram o “frango industrial”, uma prática produtiva que requer antibióticos para evitar a morte em massa de suas aves.
Agora que as empresas e os governos começam a dar atenção à produção sustentável, é fundamental que não se desvirtue o verdadeiro significado desse conceito. Há um crescente movimento mundial rumo à responsabilidade empresarial e à sustentabilidade, conduzido, em muitos casos, por companhias que causam prejuízos e sofrimentos ao mundo.
O informe do McDonald’s apenas resvala nos verdadeiros efeitos ambientais de suas atividades. Fala, por exemplo, sobre o papel reciclado, mas não sobre as águas carregadas de materiais contaminantes provenientes dos gigantescos criadouros de porcos no sudeste dos Estados Unidos. Quanto ao uso da energia nos restaurantes passa por alto em seu insustentável sistema produtivo, que consome dez calorias de energia para cada coloria de alimento produzida.
Um relatório honesto deveria dizer, verdadeiramente, quanto custa à sociedade sustentar uma corporação como o McDonald’s, detalharia os custos para o meio ambiente, não considerados nos informes anuais nem nos documentos contábeis: a poluição de cursos de água, os solos arrasados, os perigosos matadouros onde emprega-se trabalhadores imigrantes, os efeitos sobre atmosfera do gás metano produzido pela produção de carne e o impacto de seus US$ 2 bilhões em publicidade para induzir os jovens e as crianças a consumirem seus produtos. Percebe-se na autodefesa do MacDonald’s sua falta de transparência e honestidade empresarial. O problema é que o McDonald’s não pode fazer com que sua cadeia de abastecimento seja sustentável porque o resultado final é destrutivo para a vida. (Copyright IPS)
* Paul Hawken é fundador do Nature Capital Institute, com sede em Sausalito, e autor de “A Ecologia do Comércio e o Capitalismo Natural”.
|