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Áreas (des)protegidas |
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Por Pilar Franco*
A Mesoamérica possui 597 reservas naturais que incluem locais paradisíacos. Mas, isso é suficiente para proteger a biodiversidade a longo prazo? Muitas delas enfrentam problemas para funcionar em uma região com problemas econômicos onde se perde 44 hectares de florestas por hora.
MÉXICO.- A existência de 597 áreas protegidas na América Central e no sudeste do México é insuficiente para preservar essa região, conhecida como Mesoamérica, que abriga quase 10% da diversidade biológica do planeta e é habitada por mais de 40 milhões de pessoas, a maioria pobres. Apesar de terem sua proteção declarada, apenas umas poucas áreas seletas contam com contextos legais e institucionais para conservar a biodiversidade e gerar, a longo prazo, bens e serviços necessários para o desenvolvimento comunitário, de acordo com diversas pesquisas.
O estabelecimento de áreas protegidas nestas condições não salvará, por exemplo, os ecossistemas florestais, submetidos a um desmatamento de 44 hectares por hora. Se a tendência prosseguir, poderão ser extintas até 2015, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O desmatamento que ameaça a reserva florestal de Bosawas, na Nicarágua, as práticas depredadoras contra os manguezais hondurenhos no golfo de Fonseca, e a destruição de Montes Azules, na selva Lacandona de Chiapas, no México, são apenas alguns dos desafios que a região enfrenta.
Nos últimos 30 anos, os governos da Mesoamérica (Belize, Costa Rica, El Salvador, Honduras, Guatemala, Nicarágua, Panamá e os estados mexicanos de Yucatán, Quintana Roo, Tabasco, Campeche e Chiapas) declararam 597 áreas protegidas a fim de deter a perda de hábitat. No entanto, a metade dessas zonas carece de pessoal, apenas 12% têm programas de gestão, a maioria está mal delimitada e umas poucas dezenas possuem projetos de pesquisa. Segundo o Pnuma, a falta de crescimento econômico sustentado ameaça perpetuar a pobreza rural que, por sua vez, seguirá exercendo uma grande pressão sobre os recursos naturais e as áreas protegidas debilmente resguardadas.
Para as organizações ecológicas, o maior inimigo da região, que forma um único ecossistema natural e cultural, são as políticas ambientais que seguem uma dinâmica de proteção-destruição. Estes assuntos estarão na mesa durante o Primeiro Congresso Mesoamericano de Áreas Protegidas, que acontecerá em Manágua, de 10 a 14 de março, e terminará com uma declaração sobre os compromissos regionais para proteger a biodiversidade nos próximos 15 anos. O encontro deverá discutir medidas para reduzir a crescente fragmentação de hábitats, uma das principais causas da extinção de espécies.
Justamente esse é o propósito do Corredor Biológico Mesoamericano (CBM), criado em 1997 para ligar as reservas e dar continuidade à sua diversidade biológica. O programa de consolidação do CBM conta com orçamento de US$ 16 bilhões em cinco anos, financiados em parte pelo Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF). Porém, em alguns setores ambientalistas reina o ceticismo. A sociedade civil tende a reduzir sua participação nesses casos por causa da “ausência de decisões eficazes”, disse ao Terramérica o poeta mexicano Homero Aridjis, presidente do ecológico Grupo dos Cem Internacional
Aridjis e o prêmio Nobel de literatura colombiano Gabriel García Márquez entregaram, em 1991, à Primeira Cúpula Iberoamericana de chefes de Estado, uma proposta recomendando estabelecer um parque eco-arqueológico mexicano-guatemalteco para “garantir a preservação da grande selva tropical de Chiapas e El Petén”, lembrou o ativista. Porém, “os próprios governos não respeitam o que dizem proteger e convertem os decretos em letra morta”, acrescentou. É o caso de Montes Azules, no conflitivo estado mexicano de Chiapas, que, segundo Aridjis, “é uma reserva virtualmente destruída” pelos madeireiros, latifundiários e os próprios indígenas que ignoram por completo a declaração de proteção das áreas.
Na Nicarágua, se continuar o ritmo de desmatamento que ameaça Bosawas, uma das maiores áreas protegidas da América Central, esta poderá deixar de permanecer na rede de reservas da biosfera à qual foi incorporada em 1997 pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Silvia Argüello, especialista do governamental Centro Humboldt, alerta para o perigo que corre Bosawas. “Não há controle sobre a extração de madeira nessa região, que também é rota de traficantes de droga”, disse ao Terramérica. Desde 2001, a Nicarágua perdeu 73 mil hectares de floresta, segundo dados oficiais, por causa da atividade agrícola, dos incêndios e como conseqüência de furacões, secas e inundações.
Na biosfera do Rio Plátano, nos departamentos hondurenhos de Olancho e Mosquita, grupos ambientalistas lutam para evitar a extinção de importantes espécies de animais, como a águia harpia, única no mundo. Entretanto, no Golfo de Fonseca, ao sul de Honduras, no Pacífico, as empresas do setor de camarão continuam depredando os manguezais e os ecossistemas, a ponto de quase extingui-los, disse ao Terramérica Jorge Varela, do Comitê para a Defesa da Flora e da Fauna do Golfo. Um discurso oficial “menos teórico e mais prático”, é o que Varela pede, convencido de que o diálogo pode “ajudar a salvar” os recursos em Honduras.
O governo hondurenho convocou grupos sociais e instituições acadêmicas para preparar, até o final de fevereiro, uma agenda comum para a reunião de Manágua, informou Conrado González, da estatal Corporação Hondurenha de Desenvolvimento Florestal. O encontro de Manágua é preparatório para a quinta cúpula mundial sobre o assunto, que acontecerá na África do Sul. O debate vai evoluindo, agora compreende-se que declarar áreas protegidas “não significa fechar as portas ao desenvolvimento”, mas abrir o caminho para maiores oportunidades econômicas, disse ao Terramérica Teresa Zúñiga, do comitê organizador da reunião.
* A autora é colaboradora do Terramérica. Contribuíram para este artigo Thelma Mejía (Honduras) e Nohelia González (Nicarágua).
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