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O formigueiro de cima e de baixo |
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Por Mário Osava*
A ministra do Meio Ambiente brasileira, Marina Silva, procede de um movimento "que defende de forma indissolúvel as florestas e as pessoas que vivem nelas". Isso implica "introduzir todas as dimensões do desenvolvimento sustentável no coração dos governos", disse ao Terramérica.
RIO DE JANEIRO.- “Quero olhar o melhor
da modernidade, mas, também, o mais refinado da tradição,
o formigueiro de baixo e o de cima. O casamento entre o tradicional
e o moderno, entre a cidade e a floresta, entre o céu e a
terra fará do Brasil a nação que esperamos”,
disse ao Terramérica a ministra do Meio Ambiente, Marina
Silva. Com 45 anos, filha da Amazônia e da luta dos “povos
da selva”, Marina trabalhou desde criança ajudando
seu pai, seringueiro, no Acre. Acordava de madrugada e caminhava
14 quilômetros por dia enquanto extraía o látex.
Conseguiu alfabetizar-se aos 17 anos e formou-se em História
estudando de noite e trabalhando como doméstica. Sua nomeação
como ministra este ano foi uma das decisões mais aplaudidas
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que acaba de completar
cem dias de governo.
-O que despertou sua preocupação
com a defesa do meio ambiente?
-É o resultado de valores cultivados nas dificuldades. Além
disso, também se deve à participação
em um movimento social que contribuiu para a criação
do conceito “socioambiental”, que defende de forma indissolúvel
as florestas e as pessoas que vivem nelas. Essa luta busca introduzir
todas as dimensões do desenvolvimento sustentável
no coração dos governos. O poder se fortalece ao compartilhar.
O Ministério do Meio Ambiente orienta-se por três eixos:
a transversalidade, que é a interação da política
ambiental com todos os setores do governo; o encontro social e o
desenvolvimento sustentável.
-Como tornar transversal a dimensão
ambiental nas decisões do governo?
-Muitos funcionários provêm de uma longa militância
social e luta contra a ditadura. Agora, sobressai o desafio de governar
sem esquecer o compromisso social e de Justiça.
-O que deve mudar na agropecuária
amazônica para evitar as queimadas?
-A agricultura e a pecuária na Amazônia continuam,
hoje, sendo um modelo equivocado. Recentes indícios em Roraima
demonstram isso. Nesse Estado, mais de 20 mil famílias assentadas
em terras públicas praticam a ferro e fogo a agricultura
que impera há séculos. Os efeitos são perda
da biodiversidade, empobrecimento do solo e danos aos recursos hídricos
e à saúde. Precisamos de uma mudança profunda
nos modos de produção e ocupação da
terra, com cultivos perenes, sistemas agroflorestais e extração
sustentável, além de linhas de crédito e novas
tecnologias. A cultura do fogo começa a ser combatida em
conjunto por vários ministérios e organismos governamentais.
Esse é um exemplo da transversalidade.
-Que papel terá o conhecimento
tradicional dos povos da floresta na promoção do desenvolvimento
sustentável?
-Me agrada o seguinte exemplo: um grupo de jovens pesquisadores
instalavam sua barraca de campanha na praia de um rio nos seringais
da Amazônia quando um habitante local recomendou que ficassem
mais para cima, porque uma chuva poderia inundar a praia. Eles responderam
que seus modernos equipamentos não previam chuva. Às
duas da madrugada bateram na porta do caboclo para pedir refúgio.
Pela manhã, perguntaram a ele como sabia que ia chover. “Vêem
aquele formigueiro perto do rio? Quando as formigas se mudam do
que fica embaixo para o de cima é porque vai chover”,
respondeu o homem. Quero olhar o melhor da modernidade, mas, também,
o mais refinado da tradição, o formigueiro de baixo
e o de cima.
-Quais medidas pensa adotar contra
a biopirataria?
-O Brasil é o país mais rico do planeta em biodiversidade.
Temos mais de 20% de todas as espécies vivas conhecidas,
e nos últimos anos evidenciou-se o valor dos recursos naturais
para obter novos produtos. Contra a biopirataria temos a Lei de
Acesso aos Recursos da Biodiversidade, que deve ser melhorada. Um
caso recente é o do cupuaçu, uma fruta amazônica
que foi patenteada por uma empresa japonesa.
* O autor é correspondente da IPS.
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