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Uma fórmula para o desastre

Por Vandana Shiva*

Com sua política de incentivar a privatização da água, a companhia norte-americana Bechtel desestabilizou comunidades locais em diversos países.

NOVA DÉLHI.- A presença no Iraque da Bechtel, uma empresa norte-americana com longa história em relação aos conflitos sobre a água, é uma fórmula para o desastre. Seu contrato no valor de US$ 680 milhões para a reconstrução do Iraque inclui, mas não está limitado, “os sistemas municipais de água e esgoto, as principais infra-estruturas de irrigação e dragagem, reparo e melhoria do porto marítimo de Umn Qasr”.

A política da Bechtel de incentivar a privatização da água desestabilizou comunidades locais em outras partes do mundo. No árido Oriente Médio, com uma já candente disputa internacional sobre a água, a tentativa de uma multinacional de controlar esse recurso vital pode agravar a situação.

Os rios Tigre e Eufrates são uma tábua de salvação no Oriente Médio. A planície pluvial entre esses dois rios foi a cunha de civilizações milenares, incluindo a assíria, a babilônica e a suméria. Hoje em dia, estes rios representam um recurso primordial para as pessoas da região, ao mesmo tempo que um grave motivo de conflito.

A construção em grande escala de represas por parte da Turquia causou a reação dos Estados ribeirinhos da Síria e do Iraque. Com mais da metade das águas dos dois rios gerada em seu território, a Turquia converteu-se, através de suas represas, no grande regulador de suas águas. À Síria e ao Iraque preocupa que as necessidades turcas de irrigação e geração de eletricidade determinem quanta água pode chegar aos seus territórios.

O antecedente mais conhecido sobre a cobiça da Bechtel é o de Cochabamba, região da Bolívia onde a água é escassa. Em 1999, o Banco Mundial recomendou a privatização da Semapa, a empresa municipal de água, por meio de uma concessão à Águas Internacionais, subsidiária da Bechtel. Em outubro desse mesmo ano, uma Lei sobre Água Potável e Saneamento foi aprovada, dando por terminados os subsídios governamentais e abrindo caminho para a privatização.

Em uma cidade onde o salário mínimo mensal não chega a US$ 100,00, o custo médio familiar do consumo hídrico chegava a US$ 20,00, equivalente ao custo alimentar de uma família de cinco pessoas durante duas semanas. Em janeiro de 2000 formou-se a Coordenadoria de Defesa da Água e da Vida, uma aliança cidadã que paralisou a cidade durante quatro dias através da mobilização popular. O governo prometeu baixar o preço da água, mas nunca o fez.

Em resposta, a Coordenadoria organizou uma marcha pacífica pedindo a revogação da nova lei e da privatização, o cancelamento do contrato com a Bechtel e a participação da sociedade na preparação de uma lei sobre a água. Os manifestantes foram reprimidos violentamente - houve mortes, prisões e censura à imprensa -, mas continuaram. Finalmente, em 10 de abril, o povo ganhou e a Bechtel deixou a Bolívia. O governo foi obrigado a revogar a legislação sobre a privatização hídrica e a Semapa foi cedida aos trabalhadores e à população, junto com suas dívidas.

Em Cochabamba, a sociedade assumiu o desafio de estabelecer uma democracia da água, mas a Bechtel está pedindo uma indenização ao governo boliviano. A julgar por seu comportamento na Bolívia e em outros tantos países, a multinacional poderia tentar controlar os recursos hídricos do Iraque, não só as obras de reconstrução, caso a comunidade internacional e os iraquianos não fiquem vigilantes.

Os executivos da Bechtel cobiçam o mercado do Iraque há 20 anos. Em 1983, Donald Rumsfeld, então enviado especial para o Oriente Médio do governo de Ronald Reagan, reuniu-se em Bagdá com Saddam Hussein para discutir um projeto para a construção de um gigantesco oleoduto. Hussein, que tinha o costume de preferir as companhias francesas, alemãs e russas, rejeitou a proposta.

Agora, de seu cargo como secretário da Defesa dos Estados Unidos, Rumsfeld supervisionou a guerra para remover o obstáculo que Saddam representava e limpar o caminho para a entrada da Bechtel no Iraque.

* A autora é escritora e ativista em favor da defesa do meio ambiente. Direitos reservados à IPS.




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