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Os pobres não podem entrar em Peñalolén

Por Por Gustavo Gonzaléz*

Uma exclusiva comunidade ecológica na pré-cordilheira da capital do Chile rejeita a recolocação de “povoadores” em um terreno local. O caso será resolvido em agosto.

SANTIAGO.- Moradores da exclusiva Comunidade Ecológica de Peñalolén, nas encostas da pré-cordilheira de Santiago do Chile, negam-se a permitir que em sua vizinhança se instalem famílias pobres. Essa negativa parece estar dando lugar a uma nova classe, os “ecoelitistas”. Mas, é assim? No início de julho, o Ministério da Habitação chegou a um acordo com os dirigentes da chamada “Toma de Peñalolén” para trasladar para novos terrenos e construir casas para mais de 1500 famílias que vivem em uma área de 22 hectares, que ocuparam em 1999. O plano é recolocar as famílias de Toma em pelo menos quatro terrenos, e erradicar seu acampamento de precárias cabanas de madeira, papelão e lata.

O município de Peñalolén, criado sob a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), experimenta constante crescimento devido à expansão rumo à Cordilheira dos Andes da cidade de quase seis milhões de habitantes. Em seus novos deslocamentos, os “povoadores” - como são chamados no Chile os moradores da periferia pobre - contarão com subsídios estatais para financiar a construção de moradias definitivas. Porém, ao saber que uma das quatro áreas escolhidas, para assentar 250 famílias, seria um terreno próximo à ecologista Comunidade de Peñalolén, vários de seus moradores reagiram irados.

Em meados dos anos 90, artistas e intelectuais decidiram fugir do rarefeito ambiente de Santiago e adquiriram áreas na pré-cordilheira com a intenção de levar nesse local um estilo de vida em harmonia com a natureza. Em um entorno de ruas sem pavimentação e abundante vegetação nativa, a comunidade conta com sistemas de reciclagem de lixo e hortas auto-sustentáveis que são irrigadas com água captada de vertentes da Quebrada de Macul. Ali vivem entre 25 e 50 pessoas por hectare, em moradias de arquitetura pouco convencional. Há amplas casas construídas com modernas aplicações de adobe (barro e palha) e até um vagão de trem adaptado como moradia.

O assentamento das famílias de Toma significará uma densidade de 300 pessoas por hectare e romperá a norma de 1999 que fixou para o setor a proporção de 25 a 50 habitantes por hectare, alegou Valericio Contreras, presidente da comunidade, negando que os proprietários estejam agindo com discriminação. “Em cinco ocasiões rejeitamos a instalação de condomínios de luxo, porque, como neste caso, destruiriam um ambiente e um sistema de vida únicos neste país”, disse Contreras.

“As pessoas têm direito de lutar por sua dignidade e isto passa por uma moradia digna”, disse o ator Héctor Noguera, também morador da comunidade, mas que não se opõe à instalação dos “povoadores”. “Que não lhes dêem uma casa-jaula que se desfaz com a primeira chuva. Tomara pudessem viver da mesma maneira ecológica que as pessoas da comunidade. Que as crianças tenham parques e as famílias espaços para viver”, disse Noguera ao Terramérica. Vários atores e atrizes que haviam assumido uma ativa oposição ao assentamento das famílias pobres decidiram deixar de se expressar publicamente diante da polêmica gerada por sua posição contrária à medida, que se resolverá em agosto.

Essa rejeição expressa “uma discriminação construída em torno do estigma da delinqüência. Confunde-se pobreza com delinqüência e delinqüência com drogas e se faz um só pacote com tudo isso”, disse a socióloga Maria Emilia Tijoux, da Universidade de Artes e Ciências Sociais (Arcis). A primeira opção dos “povoadores" foi construir casas no mesmo lugar que ocupavam, explicou ao Terramérica Aléxis Parada, presidente da Comissão A Voz dos Sem-Casa, que dirigiu a Toma de Peñalolén. Agora, o importante é conseguir uma solução habitacional, sustentou.

* O autor é correspondente da IPS.


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Geo-Crítica. Universidade de Barcelona

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