 |
|
|
Os Estados Unidos buscam ampliar o uso de brometo de metilo |
|
Por Katherine Stapp*
A iniciativa que o governo Bush apresentará em novembro enfraquecerá os esforços para reduzir o uso do gás causador do desgaste da camada de ozônio.
NOVA YORK.- O perigoso inseticida brometo de metilo, que o mundo industrializado deveria eliminar em 2005, pode prolongar sua vida se o governo de George W. Bush conseguir impor exceções, durante uma reunião das Nações Unidas em novembro. Essa substância é um dos gases causadores do desgaste da camada de ozônio, indispensável para a vida na Terra, pois filtra as radiações solares perigosas. Sua proibição total, bem como a dos clorofluorcarbonos (CFC) e de outras substâncias que afetam o ozônio estratosférico, está estipulada no Protocolo de Montreal, ratificado por 183 países.
Novas pesquisas provam que a proibição está funcionando. Em um estudo divulgado em agosto, cientistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos, falaram de uma redução de 13% na proporção de brometo de metilo na atmosfera, que atribuem ao resultado do Protocolo. Os Estados Unidos iniciaram, há uma década, uma redução gradual do brometo, mas ainda o aplicam em muitos cultivos e produtos de madeira. O consumo anual é de 21 mil toneladas, 75% delas usadas para preparar solos antes da semeadura e o restante como inseticida em depósitos.
O Departamento de Agricultura exige a fumigação com este inseticida em quase todas as embalagens de madeira importadas, e a Agência de Proteção Ambiental pretende dar luz verde ao uso de milhões de litros de brometo por parte dos agricultores norte-americanos. Na reunião que acontecerá em novembro, o Secretaria do Ozônio da Organização das Nações Unidas, em Nairóbi, no Quênia, Washington planeja solicitar exceções para “usos críticos” do brometo de metilo.
“Devemos considerar o cultivo em questão, as pragas a serem controladas a localização geográfica, entre outras coisas”, disse ao Terramérica a cientista Nancy Ragsdale, do Departamento de Agricultura. No momento não existe uma alternativa disponível para substituir o inseticida sem grandes ajustes no manejo de pragas e em potenciais perdas econômicas”, afirmou Ragsdale. “Existe o consenso de que as exceções não terão um efeito significativo na camada de ozônio”, ressaltou. Os sindicatos de trabalhadores agrícolas reclamam há algum tempo a proibição do inseticida por causa de seus efeitos na saúde. Em altas concentrações, pode causar danos ao sistema nervoso central e ao aparelho respiratório, convulsões, coma e até a morte. A exposição de mulheres grávidas pode causar má-formação nos recém-nascidos. O Instituto Nacional do Câncer, dos Estados Unidos, vincula o brometo de metilo com o aumento do câncer de próstata em trabalhadores agrícolas e outros envolvidos na sua manipulação.
A partir de 2004, o Estado da Califórnia imporá a obrigação do uso de equipamento de proteção (principalmente máscaras antigás) por trabalhadores que lidam com o veneno com certa freqüência. No entanto, as associações de empresários asseguram que seu uso é essencial. “A produção agrícola reduziu o uso de brometo de metilo ao mínimo, mas chegamos ao ponto em que não podemos continuar avançando”, afirmou o presidente da Federação de Câmaras Agrícolas da Califórnia, Bill Pauli, em julho. Se Washington conseguir as exceções, poderiam ser fabricadas dez mil toneladas do inseticida, aumentando em 39% seu uso, em relação a 1991, para uma variedade de cultivos, como frutas, tomates e batatas.
Os ambientalistas e ativistas pela saúde pública acreditam que esta medida não seria inócua. “O brometo de metilo é um causador do desgaste da camada de ozônio mais potente do que os CFC. Sua eliminação marcará uma absoluta diferença”, disse ao Terramérica a ativista Kristin Schafer, da Rede de Ação sobre Inseticidas. “Anos de pesquisa científica e negociações políticas concluíram em estabelecer 2005 como prazo de eliminação. É vergonhoso que um punhado de interesses agrícolas dos Estados Unidos, sustentados pelo uso permanente de químicos perigosos, esteja minando este compromisso”, afirmou.
Já em 1995, o Comitê de Opções Técnicas ao Brometo de Metilo, um painel de especialistas que trabalha no contexto do Protocolo de Montreal, determinou três alternativas viáveis para mais de 95% do uso mundial do inseticida, recordou Schafer. Dois possíveis substitutos são o iodeto de metilo e uma fórmula líquida da nitrito de sódio, conhecida com SEP-100. Ambos aguardam aprovação da Agência de Proteção Ambiental. Embora as concentrações de brometo e cloro na atmosfera continuem caindo, a recuperação total da camada de ozônio ainda levará várias décadas. “As reduções são conseqüência dos limites internacionais à produção. Sem um cumprimento a recuperação total do ozônio estratosférico demorará”, afirmou o cientista Stephen Montzka, da NOAA.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
|