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Reciclar é uma arte

Por Francesca Colombo*

Resíduos de plástico, papel e alumínio servem de matéria-prima para os ecodesenhistas que concebem novos objetos em série economizando energia e reduzindo a poluição industrial.

ROMA - Uma cozinha de papelão construída com 70 quilos de publicações, um abrigo de plástico e uma luminária de papel são alguns exemplos do ecodesenho italiano, que combina proteção do ambiente e economia sustentável. O desenho verde soma "estratégias, métodos e instrumentos inovadores para prevenir e reduzir os impactos ambientais negativos em todas as fases do ciclo de um produto" sem descuidar da estética, disse ao Terramérica a arquiteta Lucia Pietrosi, professora de Desenho Industrial da Universidade La Sapienza de Roma.

Em 2002, a Itália desperdiçou 29,8 milhões de toneladas de plástico, segundo a Agência para Proteção do Meio Ambiente italiana. No ano seguinte foram recuperadas 900 toneladas, sobretudo para fazer móveis e vestuário. De cada dez garrafas de plástico que foram para o lixo são obtidas fibras sintéticas para fazer uma cadeira, com 45 copos de plástico se faz um banco e com 31 garrafas uma árvore de Natal. Também se reutiliza papelão, papel, alumínio e aço. A ecoinovação explora recursos renováveis e separa os componentes de um produto no final de seu ciclo de vida para eliminar substâncias perigosas.

Com materiais "pobres" os artistas se inspiram, experimentam e criam. Um exemplo é a mostra "Mais Além das Caixas. Desenho com Papel e Papelão", realizada a cada ano na Faculdade de Arquitetura da Universidade Ludovico de Roma. Algumas atrações dessa mostra foram a cadeira Recall, com 70% de alumínio e papelão reciclados (de Marco Capellini, da empresa Remade), o vestido Medusa, confeccionado à mão e em papel (da arquiteta Caterina Crepax), uma mesa-escritório de papelão ondulado que suporta 80 quilos de peso, e o Lucky, cavalinho de papelão para crianças (de llaria Vitanostra).

"Na Itália bebemos muito café e a cafeteira é feita de alumínio reciclado, mas ninguém sabe" e assim "se economiza 85%" da grande quantidade de energia necessária para produzir alumínio virgem, explicou ao Terramérica o arquiteto Capellini, fundador do Matrec, o primeiro banco de dados italiano de acesso gratuito sobre ecodesenho e reciclagem. Até alguns anos atrás, os produtos de reciclagem eram menosprezados na Itália, mas atualmente 90% dos consumidores se declaram dispostos a comprar mercadorias de uns três mil produtores. Alguns empresários se queixam de que o ecodesenho ainda não produz objetos com recepção equivalente à dos tradicionais. Entretanto, são cada vez mais os produtos italianos que ganham a etiqueta "Ecolabel", um certificado europeu de qualidade ambiental.

O Parlamento Europeu adotou este ano um regulamento que impõe, pelo menos até 2008, a reutilização de 60% dos resíduos de papel e vidro, 50% dos de aço e alumínio, 22,5% dos de plástico e 15% dos de madeira, para reduzir o impacto ambiental de resíduos e embalagens. Na Itália não foram consolidados até os anos 90 os conceitos verdes de projeto e construção que são discutidos no norte da Europa desde os anos 60. Um decreto de agosto de 2003 dispõe que 30% dos bens adquiridos pela administração pública italiana sejam fabricados com matéria-prima reciclada.

A tendência atual de empresas como a Merloni, líder em eletrodomésticos de linha branca (para cozinha e lavagem de roupas) da União Européia, é destacar a funcionalidade e a redução dos efeitos adversos, ambientais e sociais, na fabricação de seus produtos. A empresa, que produziu em 2003 cerca de 13 milhões de eletrodomésticos, recicla materiais, não para fazer produtos da linha branca, mas para fazer bicicletas de alumínio e móveis para o lar. "Respeitamos as regras da União Européia e temos um comitê de vigilância que controla o estilo e a construção em termos de economia de energia, porque trabalhamos com o conceito de respeito ao ambiente", assegurou ao Terramérica Chiara Pascarella, da Merloni.

Os ecodesenhistas enfrentam o desafio de usar mais imaginação do que seus colegas tradicionais e às vezes suas criações não são bonitas. A mistura de vários tipos de plástico, por exemplo, nem sempre dá resultados homogêneos ou atraentes. "O ecodesenho não é só o trabalho com o material reciclado, mas também fazer eletrodomésticos sustentáveis que não causem danos ao ambiente, sejam fáceis de montar e desmontar, e economizem energia", sustentou Capellini.

A empresa Indarte produz com baixo custo e em pequenas séries, relógios feitos com faróis de bicicleta, lâmpadas feitas com vasilhas de conservas e escovas de alumínio concebidas para durar 20 anos. "Não estamos nisto por consciência ecológica mas por falta de capital para outras propostas. O verdadeiro ecodesenho se valoriza com base na quantidade de energia e material utilizada, não desperdiça nada e constrói objetos indestrutíveis que não saem de moda", disse ao Terramérica, na cidade de Turin, o proprietário da Indarte, Marco Gilioli.

"Os consumidores compram por três fatores: beleza, qualidade e preço. Se for acrescentado o respeito ao ambiente, é um ponto a mais na hora de comprar", segundo o arquiteto Giuseppe Lotty, do Centro Experimental de Móveis da Universidade de Florência.

* A autora é colaboradora da Terramérica.




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