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O capitalismo pode ser verde? |
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Por Stephen Leahy*
Especialistas
dizem que o crescimento econômico contínuo, intrínseco do capitalismo,
não é viável em um planeta com recursos naturais cada vez mais escassos.
TORONTO, 7 de maio (IPS/IFEJ).- O capitalismo
demonstrou ser ambiental e socialmente insustentável, por isso a
prosperidade futura deverá surgir de um novo modelo econômico, afirmam
alguns especialistas. O “como” é matéria de intenso debate. Uma
corrente afirma que o crescimento contínuo é compatível com o meio
ambiente se forem adotadas tecnologias mais limpas e eficientes
e se as economias deixarem paulatinamente de elaborar bens materiais
para passar aos serviços. A isto dão o nome de prosperidade sustentável.
Instrumentos internacionais destinados a atacar problemas globais,
como o buraco da camada de ozônio e o aquecimento global, adotaram
princípios de mercado para conseguir o cumprimento pelo setor privado.
No entanto, o problema é que “consumimos 25% mais do que a Terra
pode nos dar por ano”, afirma William Rees, da Escola de Planejamento
Comunitário e Regional da Universidade da Columbia Britânica, no
Canadá.
Rees e outros estudiosos calcularam que o consumo humano de recursos
naturais excede, a cada ano, em 25% a capacidade da natureza em
regenerá-los, uma proporção que cresce desde 1984, primeiro ano
em que a humanidade passou essa marca. “Nosso planeta precisa de
um capital natural, como árvores, para proporcionar serviços como
água e ar puros, dos quais dependemos”, disse em uma entrevista
Rees, que é um dos criadores da “pegada ecológica”, um indicador
para conhecer a quantidade de território produtivo que uma determinada
população humana necessita para obter recursos e para que seus resíduos
sejam absorvidos.
O capitalismo se baseia no acúmulo de riqueza pelo consumo de recursos
naturais cuja disponibilidade é limitada, afirmou Rees. Também estamos
excedendo a capacidade do planeta em absorver poluição e resíduos,
como as emissões de dióxido de carbono vinculadas à mudança climática.
Os economistas de mercado não falam de contaminação, mas de “externalidades”
que raramente incluem como fator em seus modelos econômicos, ressaltou
o especialista.
Por isso, a prosperidade sustentável é o uso global de recursos
e a geração de dejetos que não superem a capacidade regenerativa
do planeta. Igualmente importante é a dimensão social: a verdadeira
prosperidade só é possível quando a diferença entre as rendas de
ricos e pobres é pequena, disse Rees. Entretanto, “os executivos
dos Estados Unidos ganham entre 500 e mil vezes mais do que os trabalhadores
de outras categorias e essa desigualdade está se agravando”, garantiu.
Se todos vivessem como os norte-americanos, seriam necessários cinco
planetas para proporcionar os recursos exigidos, segundo o Living
Planet Report 2006, do Fundo Mundial para a Natureza.
A solução não está em mais tecnologias limpas e eficientes. As sociedades
industriais já usam os recursos de modo mais eficiente do que as
nações em desenvolvimento, mas consomem muitos mais bens materiais
e, portanto, mais recursos naturais, estimou Rees. A seu ver, os
novos mantras - consumo de produtos orgânicos ou elaborados de modo
sustentável e a desmaterialização das economias (gerar serviços,
mais do que produtos) - não resolvem nada. A única solução é reduzir
a poluição e o uso de recursos, afirmou. “Toda esta conversa sobre
sustentabilidade significa que não queremos realmente mudar o que
fazemos”, ressaltou Ress.
As compras responsáveis ou a responsabilidade social corporativa
não farão muita diferença, coincidiu o ecologista Brian Czech, presidente
do Centro para o Avanço de uma Economia de Fase Estável, um instituto
de estudos com sede em Washington. “Temos de reduzir nosso crescimento
econômico para nos estabilizarmos”, acrescentou em entrevista ao
Terramérica. A maioria das nações em desenvolvimento precisa crescer,
e os países ricos têm de reduzir seu uso de recursos para que isso
ocorra, acrescentou. A idéia de que o crescimento contínuo pode
se sustentar graças à desmaterialização “não tem sentido”, disse
Czech.
Produzir serviços requer usar recursos naturais como energia, e
o dinheiro gerado será usado para comprar algo. “Os economistas
neoclássicos do Banco Mundial e da Agência para o Desenvolvimento
Internacional, dos Estados Unidos, entre outros, continuam acreditando
que não há limites para o crescimento”, disse Czech. É preciso redefinir
o êxito econômico: em lugar de aumentar a riqueza, aumentar o bem-estar,
afirmou Nic Marks, diretor do Centro para o Bem-Estar da Fundação
Nova Economia, com sede em Londres. O governo britânico reconheceu
que a economia deve caber em um único planeta e que já estamos além
de seus meios, disse Marks em entrevista ao Terramérica.
“Entretanto, é politicamente insustentável dizer que o caminho é
um crescimento econômico menor”, prosseguiu. Portanto, um crescimento
mais verde, mais limpo e desmaterializado é a solução, junto com
importantes reduções no uso dos recursos, disse Marks. O empresário
norte-americano Peter Barns considera que o capitalismo deve passar
da exploração de recursos naturais, como o ar e a água, para protegê-los
como bens comuns da humanidade. Estes “fideicomissos da riqueza
natural” seriam todos os seres humanos, que teriam poder para limitar
o uso de recursos escassos, impor tributos e distribuir dividendos,
afirma em seu livro Capitalismo 3.0.
Barnes imagina um mundo com muitos protetores de ecossistemas, administrados
por pessoas que estarão proibidas de atuar em seu próprio interesse
e só poderão fazê-lo em representação dos interesses dos cidadãos
e das gerações futuras por igual. “Nem o governo nem as corporações
representam as necessidades das gerações futuras, dos ecossistemas
e das espécies não humanas. Os fideicomissos podem fazê-lo”, diz
em seu livro.
* Este artigo é parte de uma série sobre
desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter
Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas
Ambientais). |